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Amigos, amigos, livros à parte

Amigos, amigos, livros à parte

Esperava teoria política, tropecei em literatura

 

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"Winston só se levantou daí a minutos. Começara a escurecer no quarto. Voltou-se para o lado da luz e ficou deitado a contemplar o pisa-papéis de vidro. O que constituia para ele inesgotável motivo de interesse não residia no fragmento de coral mas no interior do próprio vidro. Havia nele uma tal profundidade e, contudo, era quase tão transparente como o ar. Como se a superficie do vidro fosse a abóbada celeste, envolvendo um mundo minúsculo com a sua atmosfera inviolada. Tinha a sensacão de poder entrar nesse mundo, de estar afinal dentro dele, com a cama de mogno e a mesa de abrir,o relógio a gravura e o próprio pisa-papéis. O pisa-papéis era o quarto onde se encontrava, e o coral, as vidas dele e de Julia, imóveis numa espécie de eternidade, no coração do cristal."


George Orwell, 1984, p. 150

Capa de 1984

 

 

publicado às 18:28

1954: Feminism before it was cool

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Foto de Rui Ochoa em Expresso

 
"O nascimento de Germa não lhes causava entusiasmo de maior, pois ela seria uma pequena fidalga educada e crescida em ambiente diverso, e sem muitas probabilidades de que a identificassem com o próprio sangue. "Os filhos de minhas filhas, meus netos são: os fiIhos dos meus filhos, serão ou não" - dizia, asperamente, Maria. Não havia nisto intenção insultuosa, ou, se a houvesse, seria somente por influência e controle de Quina, que, com o tempo, tomara sobre a mãe um intenso domínio. E um dos aspectos mais característicos de Quina era desprezar por princípio todas as mulheres. Não que pessoalmente as odiasse, mas, na generalidade, atribuía-lhes uma categoria deprimente, e, como elemento social, não as considerava. A verdade era que, toda a vida, ela lutara por superar a sua própria condição, e, conseguindo-o, chegando a ser apontada como cabeça de família, conhecida na feira e no tribunal, procurada por negociantes, consultada por velhos lavradores que a tratavam com a mesma seca objectividade usada entre eles, mantinha em relação às outras mulheres uma atitude não desprovida de originalidade. Amadas, servindo os seus senhores, cheias dum mimo doméstico e inconsequente, tornadas abjectas à custa de lhes ser negada a responsabilidade, usando o amor com instinto de ganância, parasitas do homem e não companheiras, Quina sentia por elas um desdém um tanto despeitado e mesmo tímido, pois havia nessa condição de escravas regaladas alguma coisa que a fazia sentir-se frustrada como mulher. Na generalidade, amava o homem como chefe de tribo e pelo secular prestígio dos seus direitos. Mas ria-se de todos eles, um por um, pois lhes encontrava inferioridades que ela, pobre fêmeazinha sem mais obrigações do que as de chorar, parir e amar abstractamente a vida, pudera vencer, não tanto por desejo de despique como por impulso de carácter, e utilizando para isso, sabiamente, tanto as suas fraquezas como os seus dons."
 
Agustina Bessa-Luís, A Sibila (1954 [2017]), p. 105-106
publicado às 10:00

Premonições Amarantinas: Vol II

A viagem ao Norte não termina em Agustina. 
 
Guiados pelo cuidadoso trabalho de anos de Helena Freitas e com os comentários de vozes como Isabel Pires de Lima e Pedro Cabrita Reis, este segundo documentário apresenta-nos Amadeu de Souza Cardoso como pintor, ambicioso artista de vanguarda, mas também epistológrafo de rara delicadeza (para quando uma reimpressão ou uma nova publicação das cartas de Amadeo?).
 
Como é mostrado em À Velocidade da Inquietação, Amadeo morreu tragicamente jovem, apenas com 33 anos, deixando um futuro que podemos vislumbrar hoje apenas por via da nossa imaginação. A par do que sucede com tantos outros nomes que nos abandonaram cedo demais (como Cesário Verde, António Nobre, Santa-Rita Pintor ou Henrique Pousão), não podemos ver a sua obra sem darmos por nós angustiados, irritados pela sua precoce ausência. Onde está este espírito que ainda hoje nos vê com tanta clareza? Que nos sondou décadas antes de nascermos e que nos fala tão perceptivelmente? 
 
Resta citar o texto de Pessoa aquando da morte de Mário Sá-Carneiro, ambos seus colegas da Orfeu:

"Morre jovem o que os Deuses amam, é um preceito da sabedoria antiga. E por certo a imaginação, que figura novos mundos, e a arte, que em obras os finge, são os sinais notáveis desse amor divino. Não concedem os Deuses esses dons para que sejamos felizes, senão para que sejamos seus pares. Quem ama, ama só a igual, porque o faz igual com amá-lo."
 

 

 

 

publicado às 10:00

Premonições Amarantinas: Vol I

Decidi encerrar 2025 com uma última viagem: Amarante.
 
Viajar ao norte é um acontecimento para qualquer pessoa, para qualquer português. Não por acaso dizemos de quem está desorientado ou perdido que perdeu o norte. Pois Amarante, para mim, é o Norte no seu estado mais puro.
 
Deixo, por isso, três sugestões de documentários sobre personalidades portuguesas muito amarantinas:
 
  • Agustina Bessa Luís
  • Amadeo Souza Cardoso
  • Teixeira de Pascoaes
 
Se estou a conhecer a primeira pelo seu célebre livro de '54, o segundo já colhe a minha admiração pelos seus quadros (e cartas!) há quase 20 anos. O último, mestre assumido por Fernando Pessoa, ainda é apenas um objetivo, com toda a curiosidade que tal condição de promessa acarreta.
 
Com os comentários de João Bénard da Costa, Manoel de Oliveira, Mónica Baldaque e, entre outros, da própria, deixo-vos o primeiro documentário, sobre a insubstituível Agustina:
 

publicado às 10:00

"Um Passado Perfeito" de Leonardo Padura: loading...

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Se há tempo em que se deve ler um noir, que outro poderá ser que não o Outono?

Termino agora mesmo o passeio por Um Passado Perfeito (em inglês, Havana Blue), o livro de abertura da série de histórias do detetive Mario Conde, conhecida em Portugal como o Quarteto de Havana ou, como o autor lhe prefere chamar, as Quatro Estações em Havana, escritas pelo autor do inesquecível O Homem que Gostava de Cães, Leonardo Padura.

No Outono, a memória do calor do Verão ainda é fresca, mas é também nesta altura que começamos a sair de casa de camisola aos ombros. Com folhas secas no chão e pores de um sol cujo brilho se extingue lentamente nos céus, o Outono é a decadência feita tempo. 

Haverá livro mais outonal que um noir, noturno, frio, passado em Havana, cansada de calor, matizada e decadente? O momento para começar este Quarteto, sabia-o, era agora.

 

Para fechar, deste universo cubano de Padura, deixo três sugestões adicionais:

  • A adaptação ao cinema das Cuatro Estaciones en la Habana, onde "nunca o noir foi tão colorido":

  • Um dos álbuns da banda eterna de Cuba, Buena Vista Social Club:

  • Por último, partilho o episódio de Parts Unknown, em Cuba, onde podemos ver a visita de Anthony Bourdain à casa de... Leonardo Padura:

 

 

 

publicado às 10:00

"A beleza salvará o mundo"

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@Wikimedia Commons

"-Sabes (...) o céu aqui é muito estranho. Tenho às vezes a sensação de que é uma coisa sólida lá em cima, protegendo-nos do que está para além. (...)

-Do que está para além?

-Sim.

-Mas o que está para além? - pergunta ela numa voz muito fraca.

-Nada, acho eu. Apenas escuridão. A noite absoluta."

 

Paul Bowles, O Céu Que Nos Protege (2017), Quetzal Editores, p.106

 

publicado às 14:35

O Regresso a John Steinbeck

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Abri o verão com um amigo reabilitado: John Steinbeck. De Vila Real de Santo António a Sines, passando por Porto Covo, O Inverno do Nosso Descontentamento foi uma excelente companhia. Uma história que se bebe no verão como um tónico: fresca e revigorante.

Não conheço a obra do autor de lés-a-lés. No entanto, em maio deste ano, num período de convalescença, li Ratos e Homens e reli A Pérola. Este último li-o no 8º ano como leitura obrigatória que foi, na altura, verdadeiramente penosa. Decidi-me, pois, a fazer as pazes com este americano. Steinbeck, ou melhor, algum Steinbeck, ganha mais valor ainda na vida adulta. Temas como a ganância, o poder, as lutas individuais e familiares pela dignidade são assuntos que, por norma, só se nos apresentam em toda a sua força (esperamos) na vida adulta. Certamente, não antes do 8º ano.

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Diz-se que O Inverno do Nosso Descontentamento (1961) é um regresso do autor ao Steinbeck de Ratos e Homens (1937) e d’A Pérola (1947). E, admitindo que os livros escritos entretanto divergem por direções vizinhas, tal até pode ser verdade. Mas, como o próprio Steinbeck e a literatura nos mostram, nunca um regresso nos devolve intactos, iguais a como partimos.

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Os três livros baseiam as suas narrativas numa visão pessimista da sociedade. Os quatro personagens principais Lennie e George (ReH), Kino (P), e Ethan (IdND) estão ligados a uma humanidade antiga, comunitária, idílica, digna, com que facilmente qualquer leitor se relaciona. Cada um dos protagonistas é, à sua maneira, amigo dos seus amigos, leal à sua família, cordato com os seus vizinhos e, muitas vezes, ligado aos seus antepassados. Por natureza, não encontram valor em aldrabar o chefe, exceto em raríssimas circunstâncias e sempre em defesa de valores mais elevados, nobres. São homens humildes, misfits, sem ilusões de grandeza; talvez desajeitados como Lenny, errantes como George, ou ingénuos como Kino, mas fundamentalmente o que chamamos de “bons corações”. 

O desfecho de Lennie, George e Kino não são para aqui chamados, mas a “realidade”, o dia-a-dia, chega-lhes pela pena de Steinbeck, caindo sobre cada um deles com um brutal estrondo de malícia, cinismo, inveja e avareza. O ethos comunitário que os protagonistas representam é prepotentemente atropelado pelo desprezo de quem pode e manda.

Ethan, o protagonista d’ O Inverno do Nosso Descontentamento, não escapa a esta provação, mas de uma forma diferente. Ao contrário de Lennie, George e Kino, o pior não está para vir, já aconteceu. Quando chegamos a New Baytown, cidade portuária onde decorre a ação, Ethan, orgulhoso descendente de uma antiga família de New Baytown, os Hawley, já perdeu o seu negócio e as riquezas que o seu apelido lhe legou:

“Só conservou o nome, de resto a única coisa que lhe interessava”

John Steinbeck, O Inverno do Nosso Descontentamento, p. 50

De várias maneiras, a realidade diz a Ethan que não se deve contentar com a posição que ocupa na vida: é um mero caixeiro empregado por um emigrado italiano macaroni, Maruzo. Mr. Baker, também descendente de uma antiga família da New Baytown, rico, dono do banco e de meia cidade, diz a Ethan que não se pode contentar com a sua situação: faz o trabalho todo na mercearia do italiano, fala com os clientes e com os fornecedores, abre e fecha a loja, guarda o dinheiro e trata dos livros de contas; faz tudo e é Maruzo quem leva o dinheiro no fim do dia. A mulher de Ethan, Mary, suplica-lhe que invista o dinheiro que ela herdou e que Ethan guarda para a eventualidade de uma emergência futura. A filha pergunta-lhe “quando estás a pensar ficar rico, pai?” e o filho só se foca em esquemas para se tornar famoso. Danny, um antigo amigo próximo de Ethan, quase seu irmão, é agora um bêbado perdido nas ruas de Baytown, incapaz de se levantar.

O cerco aperta-se e diz de forma clara a Ethan que as coisas não podem ficar como estão. Ninguém quer que fiquem, exceto ele. Ethan responde a Mary, sua mulher, mas ela ignora:

“Não deixes que a fortuna estrague a doçura da nossa pobreza.

(…)

Só existem duas medidas: não ter dinheiro e não ter dinheiro suficiente.”

John Steinbeck, O Inverno do Nosso Descontentamento, p. 127

De uma forma ou de outra, o mundo à volta de Ethan muda e o único caminho que se afigura possível para regressar à partida exige que se torne num cínico, num sonso, que se relacione e estime relações de proximidade com pelintras e homens que antes desprezava, que a única estima que ganhe dos outros seja pela força e pela intimidação. Em suma, que se esqueça de quem sempre foi. E, assim, começa o declínio trágico, silencioso, consciente e cheio de dúvidas de Ethan. Este lento definhamento de Ethan lembra, aliás, uma passagem de Kierkegaard:

«The greatest hazard of all, losing the self, can occur very quietly in the world, as if it were nothing at all. No other loss can occur so quietly; any other loss - an arm, a leg, five dollars, a wife, etc. - is sure to be noticed»

Søren Kierkegaard, The Sickness Unto Death: A Critical Psychological Exposition for Upbuilding and Awakening, pp. 32-33

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Steinbeck retrata aquilo que se cunhou, e comumente se associa a Max Weber, de “jaulas de ferro” (“iron cages”), mecanismos presentes na sociedade e no mercado que não nos permitem ser bons e empáticos e sobreviver ao mesmo tempo, bem alimentados, nutridos, sãos. Em concorrência, num cenário de finitude de recursos, o altruísta só pode ser tolo. Não restam hipóteses a Ethan além do desprezo ou da inveja dos seus e dos demais. No mundo de New Baytown:

“[O] sucesso não merece censura (…) Poder e sucesso estão acima da moralidade e da crítica. O que se faz não é nada, mas a maneira como se age e o nome que se dá aos nossos atos é que é tudo. Os homens estão munidos de um dispositivo interno que os faz parar e os castiga? Parece que não. O único castigo é insucesso."

John Steinbeck, O Inverno do Nosso Descontentamento, p. 204

Esta visão pessimista presente no Inverno do Nosso Descontentamento já vem detrás. É visível, além de qualquer dúvida, ao longo das obras de Steinbeck, n'A Pérola e em Ratos e Homens, uma incompatibilidade entre a voracidade do mundo corporativo-financeiro e uma consciência empática e de genuína camaradagem:

“Um trabalhador não precisa de juízo para ser bom tipo. Às vezes, até me parece que é o contrário. Veja, um tipo esperto… quase nunca é um camarada que preste.”

John Steinbeck, Ratos e Homens, p. 43

O desfecho d’O Inverno do Nosso Descontentamento vai contra o moralismo habitual destas histórias, mas também contra o que se podia esperar do Steinbeck de Ratos e Homens e d’A Pérola. Sem pedagogia excessiva, nem dramatismos por parte do autor, a verdade é que o fim desta história talvez tenha sido a gota de água para o comité sueco.

Há um último reduto, uma identidade ancestral, uma verdadeira chama em Ethan, e talvez em cada um de nós, neste mundo de jaulas e de ferro, de cinismo e desprezo, de competição e fome negra:

«A minha luz extingue-se. Não há nada mais negro que um morrão.

“Quero voltar para casa”, disse a mim mesmo, “não propriamente para a parte da casa que até há pouco habitava, mas sim para aquela parte de onde vem a luz.”

Quando a luz se apaga, a escuridão é maior do que se nunca tivesse brilhado a claridade. O mundo está cheio de destroços enegrecidos. O melhor caminho (…) consiste em saber que há um tempo em que se impõe uma decente e honrosa retirada, sem drama nem castigo para si mesmo ou para os seus (…)

Tinha de voltar para entregar o talismã ao seu novo proprietário. Senão, uma outra luz poderia apagar-se»

John Steinbeck, O Inverno do Nosso Descontentamento, p. 302

O amor ao próximo, a amizade, a camaradagem não impossibilitadas pela agressão deste mundo, mas como respostas a ela. Steinbeck mostra à humanidade, outra vez, que há altruísmo além da desilusão e esperança além da condenação do mundo. Que há amizade sincera e que a dignidade é tão mais visível quanto mais silenciosa for.

Todos sabemos que o mundo não gira à volta de Estocolmo, mas, discussões à parte, não deixa de ser revelador a publicação d’O Inverno do Nosso Descontentamento em 1961 e atribuição do Prémio Nobel ao seu autor em 1962.

 

 

Bibliografia

Kierkegaard, Søren. The Sickness Unto Death: A Critical Psychological Exposition for Upbuilding and Awakening. Princeton, New Jersey: Princeton University Press, 1980.

Steinbeck, John. A Pérola. Lisboa: Livros do Brasil, 2015.

—. O Inverno do Nosso Descontentamento. Lisboa: Livros do Brasil, 2015.

—. Ratos e Homens. Lisboa: Livros do Brasil, 2017.

 

 

 

publicado às 10:00

"O Céu Que Nos Protege" de Paul Bowles: loading...

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Oferta de amigo, a leitura do momento é O Céu Que Nos Protege de Paul Bowles. Excelente ideia passar umas temporadas este verão no Norte de África, começando logo em Tânger, Marrocos.

Até ao fim do livro, ao fim do deserto, fica uma outra visita a esta cidade por outro escritor, o ícone do coolness contemporâneo, Anthony Bourdain:

Anthony Bourdain: Parts Unknown | Morocco (Tangier) | S01 E05 | All Documentary

publicado às 12:41

Da fraqueza escondida em Tokarczuk e Marías

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"(...) [E]sta é a lei da pérola: assim como numa concha um grão de areia incomoda, sendo neutralizado pela madrepérola e tornando-se por fim uma preciosa jóia para nós, também todas as linhas do desenvolvimento da nossa psique se envolverão em torno desse ponto mais fraco. Cada anomalia (...) estimula determinada actividade psíquica e um desenvolvimento particular, concentrando-os em seu redor. O que nos molda não é o que há forte em nós, mas, precisamente, a anomalia, aquilo que é fraco e não é aceitável."

Empúsio, p. 302, Olga Tokarczuk

Quando se fala da vida de um homem ou de uma mulher, quando se faz uma recapitulação ou um resumo, quando se conta a sua história e a sua biografia, seja num dicionário ou numa enciclopédia ou numa crónica ou numa conversa entre amigos, costuma contar-se o que essa pessoa fez e o que se passou com ela efectivamente. Todos temos no fundo a mesma tendência, ou seja, irmo-nos vendo nas diferentes etapas nossa vida como o resultado e o conjunto do que nos aconteceu e do que conseguimos e do que realizámos, como se fosse apenas isso que constitui a nossa existência. E esquecemos quase sempre que as vidas das pessoas não são só isso: cada trajectória é também composta pelas nossas perdas e os nossos esbanjamentos, as nossas omissões e os nossos desejos não concretizados, pelo que alguma vez deixámos de lado ou não escolhemos ou não conseguimos, pelas inúmeras possibilidades que na sua maioria não se chegaram a realizar - todas menos uma, afinal -, as nossas vacilacões e os nossos sonhos, os projectos frustrados e os anseios falsos ou fracos, os medos que nos paralisaram, o que abandonámos e nos abandonou a nós. As pessoas talvez consistam, em suma, tanto no que são como no que não foram, tanto no comparável e quantificável e recordável como no mais incerto, indeciso e esfumado, talvez sejamos feitos em partes iguais do que foi e do que podia ter sido.

No Epílogo de Amanhã na batalha pensa em mim, p.333, Javier Marías

Marías e Tokarczuk, aqui, sobre os modos como podemos pensar a individualidade nos dias de hoje. Duas vozes sobre o papel formativo do erro e da frustração em tempos de dúvida, e de cinismo. Num mundo, nas palavras de Marías, “cada vez menos ingénuo”.

Amanhã na batalha pensa em mim foi escrito em 1994, 28 anos antes de Empúsio. Entretanto, muito mudou no mundo e na cultura ocidental. Factos fundamentais, claro, como o 11 de setembro, o primeiro epicentro histórico para as gerações de 90, mas também a evolução do pop, do rap, os telemóveis, as redes sociais, as torres de computadores, os tablets. É fútil enumerar. Tudo mudou. Todos estivemos cá para vê-lo. Mais importante, entre 1994 e 2022, Tokarkzuk ganhou o Nobel, em 2018. E, claro, em 2022, apenas 3 meses depois da publicação do último livro de Tokarczuk, Empúsio, em Junho de 22, falecia Marías, curiosamente, a 11 de setembro desse ano.

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Mas qual a relação dos dois? Ou dos dois livros? Há alguma? Não sei, é possível. A ligação que sublinho aqui entre os dois são dois fenómenos muito próximos e difíceis de admitir, ou sequer de ver, na formação da persona de cada um de nós: as nossas dores profundas e o trabalho de anos que exercemos sobre elas, que Tokarczuk de maneira verdadeiramente bela designa de lei da pérola; e as nossas frustrações, indecisões, sonhos falhados que Marías nos chama a atenção para a sua existência não apenas varrida para debaixo do tapete ou reprimida e esquecida, mas viva, em igual medida responsável pela forma como pensamos, falamos e agimos. Claro, a simbologia da pérola não está socialmente desligada em Olga Tokarczuk, ativista vocal pelos direitos queer e pela comunidade LGBT.  Mas creio que também podemos atribuir uma certa universalidade a esta lei de Tokarczuk: não num sentido de autoajuda, mas como lente, ferramenta de autoanálise. Para a atividade lenta, exigente e difícil (e não, não estou a falar da leitura) que é a autoanálise, não é esta nova visão sobre nós próprios um bom presente? É o tipo de concelho que não encontraremos num post de LinkedIn Não é uma apologia do “é na fraqueza que está a força”. É, sim, algo como “é na nossa fraqueza que parte de nós está”, sem apelo, sem mais-valia, sem gostos, sem likes, sem visualizações, sem comentários. Que por mais feio, ou belo, que um grão de areia possa ser, não se compara à beleza de uma pérola.

Por outro lado, nas palavras de Marías, o mundo visto nos media, nas notícias, nos jornais, nas redes sociais espelha muitas vezes o “resultado e o conjunto do que nos aconteceu e do que conseguimos e do que realizámos”: derbys de futebol, crimes hediondos, debates parlamentares, discursos eloquentes, promoções imperdíveis, partilhas, trends and posts, carreiras fulgurantes, narrativas disseminadas. Num mundo inundado, a abarrotar de sentidos, com narrativas e identidades para dar e vender, a falta de autenticidade consolida-se silenciosa, mas irrevogavelmente. 

A tendência para a urgência de definição individual torna-se cada vez mais e mais aguda. E Marías é feliz em relembrar-nos, além do trabalho de autoanálise sugerido por Tokarczuk, da nossa identidade naturalmente indecisa, indefinida, em construção, composta pelo que concretizámos, mas também pelo que falhámos. Além da análise que fazemos do nosso passado, Marías relembra-nos que perceber os outros exige vermos o equilíbrio possível que, nunca o assumindo, eles são. E, repito, estes falhanços têm de sê-lo verdadeiramente, não podem ser transformados em lições, vitórias morais, “findings”, “aprendizados”. A vida é aprendizagem, mas não só. É algo que, por definição, está em constante afastamento da nossa capacidade analítica. É algo que tanto se revelou no que somos, como no que podíamos ter sido. Somos assim desde os tempos que achámos que chegaríamos ao Sol com asas de cera.

Não deixa de ser curioso a lição presente na história de Ícaro falar da sua queda, e não para o seu voo. Tokarczuk ajuda a perceber:

“Se o senhor me perguntasse, meu jovem, o que é a alma, diria assim: a alma é aquilo que em nós é mais fraco.”

Empúsio, p. 303, Olga Tokarczuk

 

publicado às 19:23

Quando a irreverência é infinitamente inferior ao seu desejo

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Alexandre O’Neill – Uma Biografia Literária (2023), Maria Antónia Oliveira, Assírio & Alvim, Lisboa, Portugal

 

Por conselho amigo, li este mês de julho a biografia do mestre da antiga e cronicamente ignorada bela arte dos trocadilhos, Alexandre O’Neill. Tinha, e tem, tudo para ser uma excelente leitura: além da mestria já assinalada, da qual, quem me conhece bem sabe, eu próprio sou um humilde praticante, ia ler sobre a vida de um surrealista em Lisboa, das Avenidas Novas ao Príncipe Real, entre os anos 20 e 80 do século passado.

«Vais gostar, tens a boémia lisboeta toda aqui», disseram-me. O biografado, claro, mas também José Cardoso Pires, Mário Cesariny, José Augusto-França, Almeida Faria, Ruy Cinatti, Casais Monteiro… haverá melhor promessa? O que uns diziam dos outros, o que mais admiravam nuns e desprezavam noutros. Podia até ser ficção, chamem-lhe o que quiserem: levo já.

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À procura desta teia, deste fresco social e cultural de Lisboa do século passado, encontrei um autor cuja obra, sendo sincero, ainda pouco conheço. Antes de bradar que é um autor injustamente esquecido pelos tempos e cujo reconhecimento se esbate a cada dia que passa, fiz, portanto, por ler o livro e a vida do O’Neill sem cedências a qualquer dever de elogio aos antigos. Ao longo das décadas que atravessei, vi O’Neill na sua humanidade. Vi um homem de paixões mas sem dúvida machista, ciumento e orgulhoso. Vi a passagem profissional deste poeta da nossa praça de administrativo à publicidade, à rádio e à televisão. Vi o marasmo do século passado português, mantido quer pelo regime, quer pela redoma que movimentos culturais, como o neorealismo, ergueram a todos os artistas daquele tempo. É incrível notarmos na natureza duplamente reacionária do surrealismo português à sociedade caduca de Salazar, mas também à cultura da cartilha proletária e camponesa do neorealismo português. Há evidentemente pontos de contacto entre os movimentos, mas parece-me que a breve virtude do surrealismo português foi mais ou menos essa: a de recusar cartilhas. Aliás, é precisamente quando se começam a revelar traços de um “dever”, de uma “obediência a um critério” na produção surrealista que primeiro Cesariny, depois outros surrealistas como Alexandre O’Neill, acabam por, fiéis ao espírito do princípio, se desvincular do movimento.

Leitor de Guimarães Rosa, Rimbaud, Sandburg, a virtude de O’Neill era a sua independência e repulsa pelo conforto gregário, anónimo, medíocre. “O meu estilo é não ter estilo”, disse numa entrevista (p. 202 do livro). No seu afastamento do surrealismo, lemos nas entrelinhas deste livro, está um cansaço dos resultados aleatórios “encaminhados” pelos membros do grupo. O’Neill chega à triste conclusão que o espanto e a indignação da burguesia face à arte surrealista eram tão ou mais convenientes… à própria burguesia, ofendida irremediavelmente pelo despudor e pela irreverência, mas cuja identidade este mesmo espanto e indignação apenas reforçavam.

O que o fazia por vezes vaidoso era aquilo que, no fundo, lhe dava brilho e brio num país e numa sociedade cinzentonas. E é mesmo com esse espírito que devemos ler a história de O’Neill. Com toda a iconoclastia. Sem procurarmos ídolos ou torres de marfim. Sem querermos que a vida deste homem em tudo guie a nossa e a tudo sobre ela responda pois, como são prova todas as biografias honestas, só nos iriamos desiludir. Nesta nova edição de 2023, revista e aumentada, lançada para a celebrar o centenário do nascimento do poeta, a biógrafa Maria Antónia Oliveira esclarece:

«[O]s antigos não precisam de ser atuais para nos interessarmos por eles»

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Quem olha de fora para esta narrativa, cheia de nomes de artistas conhecidos, vê a distinção ficção e realidade perder o seu relevo, a sua pertinência. Uma biografia é construída de factos, sim, mas principalmente pelos pontos de vista do biografado e de quem com ele privou. Era isto mesmo que me interessava: não o factual, solene e oficial, mas as ideias, as amizades, os humores; as pessoas, não os seus nomes. Diz a certo ponto Maria Antónia Oliveira:

«O livro que escrevo é (…) uma curiosa mistura de narrativa ficcional e realidade. À medida que vou avançando na vida dele, as personagens vão se desenhando.»

Ao terminar o livro, dei por mim com a reação do português que se admira com o que de bom se faz por cá: “também há cá disto?”. É uma excelente biografia escrita em português sobre um português e isso é muito bom de ver. Mais do que um epifenómeno, Alexandre O’Neill – Uma Biografia Literária integra, se não iniciou mesmo em 2007, parece-me, um movimento retrospetivo da atual sociedade portuguesa face ao seu passado cultural (nas suas várias acepções) que muito me entusiasma. Formado também por outras biografias escritas entretanto, um novo e mais fiel fresco cultural está a ser desenhado: as vidas de José Cardoso Pires, Maria Teresa Horta, Herberto Hélder, Natália Correia, Manuel António Pina, entre outros, passaram ao papel. Ainda ontem entrei na minha terceira década de vida e, como jovem português, para além da família (que, como sabemos, é sempre um mundo à parte), não tenho referências íntimas, reais, vividas, destas décadas. E que referências nos interessam, a nós leitores, senão essas?

Fico entusiasmado com as notícias de que M.A. Oliveira está a trabalhar numa biografia de Cesário Verde (finalmente!) e não posso fazer mais nada que não seja aguardar com toda a expectativa as próximas leituras e os futuros trabalhos que chancelas como a Contraponto e a Assírio & Alvim têm publicado, deixando uma lista final em tom de desafio para futuro trabalhos:

 

Vergílio Ferreira

Maria Velho da Costa

Jorge de Sena

Maria Gabriela Llansol

Eugénio de Andrade

Vitorino Nemésio

Carlos de Oliveira

Fiama Hasse Pais Brandão

Alves Redol

José Rodrigues Miguéis

 

Até lá, estarei em merecida viagem pelo Reino da Dinamarca.

 

 

P.S.:

1) Um excelente acesso online a Alexandre O’Neill e à sua obra: https://alexandreoneill.bnportugal.gov.pt/

2) O link para o filme de Jacques Cousteau originário do célebre “sigamos o cherne”

https://www.youtube.com/watch?v=p49uc8exPSY&ab_channel=CG-45 (referido nesta biografia nas páginas 126 e 127)

publicado às 17:09

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