Se lhe aconselhasse a aumentar o volume para ouvir música clássica, provavelmente pensaria que estaria a pô-la/lo a ouvir a 5ª Sinfonia de Beethoven ou a Cavalgada das Valquírias de Wagner, certo?
Pois, não. A obra que lhe trago tem menos de três minutos e é tocada só com um piano. Sem grandes orquestras e aparato. Só com duas mãos, a magistral Yuja Wang traz-nos o desmoronar de uma montanha para dentro do auditório. Com apenas duas mãos, Wang enche a sala de trovejos, de marés revoltas de tempestade. O caso é sério. Talvez não seja única, nem a primeira, mas creio que estou a medir bem as minhas palavras ao chamá-la a mais digna herdeira de Rachmaninov.
"My purpose is to make a movie to make you warm. To give you some heat. Now, this rational world has become a place where only what is cool is good. Do you cut the movie on the basis of the beat of modernity or the basis of the beat of your own heart?”
O terceiro Duo da Reinvenção: John Field e Magdalena Hoffman.
Apesar da indiscutível beleza da harpa enquanto instrumento musical para o público leigo (é, talvez, o mais angelical que podemos conceber, disso não há dúvida), a verdade é que não são assim tantas as versões disponíveis com solos ou adaptações para este instrumento. Hoffman vem pôr fim a este vazio. Vem confirmar que a harpa é um instrumento injustamente esquecido, especialmente apto para tocar noturnos, por exemplo, mas não só.
É certo que este álbum Nightscapes, da Deutsche Grammophon, não constitui propriamente uma recomposição dos noturnos nele tocados, como os de Chopin ou Field, nem das peças de Britten, mas a verdade é que a escassez de gravações de qualidade destas e outras peças em harpa tornam este álbum numa nova leitura sobre peças tão já conhecidas nossas.
Esta ponte alada saiu em 2022, mas começou no século XVIII, com John Field, e atravessa o XIX, com Frédéric Chopin, e o XX, com Benjamin Britten.
Nesta quarta-feira, uma novidade a sair este mês de Novembro, dia 21, pela Deutsche Grammophon, com o título Ravel Recomposed. O Duo de hoje é, sim, adivinharam, composto por Maurice Ravel, mas também por Victor Le Masne.
Nesta versão de Le Masne, a flauta transversal que abre a peça Bolerodesfaz-se em ecos, evaporando-se como uma memória distante, mas sempre levemente presente. A distorção da voz de Rahim Redcar (Christina and the Queens) é eletrónica, mas flutua. A melodia tão conhecida desta dança orquestral vai se mostrando com desvelo, reimaginada, mais pop, contemporânea.
Esta ponte entre 1928 e 2025 é uma daquelas cuja eletricidade e o ritmo iluminam os passeios noturnos de quem gosta de sonhar à chuva e, talvez, de deambular por entre memórias.
Esta semana, trago 3 reinvenções de peças da música clássica. As reinvenções, apresento-as como os Duos da Reinvenção. Nestas, um antigo é "pegado" por um contemporâneo de forma a aparecer-nos sob uma nova luz, um novo ângulo. Ao contrário de um renascimento ou de uma ressureição, que pressupõe uma morte, estas reinvenções não substituem as antigas. Pelo contrário, chamam a nossa atenção para elas.
Hoje, segunda-feira, partilho convosco a recomposição de Max Richter das Quatro Estações, originalmente composta por Antonio Vivaldi, no século XVIII.
Haverá ponte mais bela que esta, entre os anos de 1725 e 2012?
Se há tempo em que se deve ler um noir, que outro poderá ser que não o Outono?
Termino agora mesmo o passeio por Um Passado Perfeito(em inglês, Havana Blue), o livro de abertura da série de histórias do detetive Mario Conde, conhecida em Portugal como o Quarteto de Havana ou, como o autor lhe prefere chamar, as Quatro Estações em Havana, escritas pelo autor do inesquecível O Homem que Gostava de Cães, Leonardo Padura.
No Outono, a memória do calor do Verão ainda é fresca, mas é também nesta altura que começamos a sair de casa de camisola aos ombros. Com folhas secas no chão e pores de um sol cujo brilho se extingue lentamente nos céus, o Outono é a decadência feita tempo.
Haverá livro mais outonal que um noir, noturno, frio, passado em Havana, cansada de calor, matizada e decadente? O momento para começar este Quarteto, sabia-o, era agora.
Para fechar, deste universo cubano de Padura, deixo três sugestões adicionais:
A adaptação ao cinema das Cuatro Estaciones en la Habana, onde "nunca o noir foi tão colorido":
Um dos álbuns da banda eterna de Cuba, Buena Vista Social Club:
Por último, partilho o episódio de Parts Unknown, em Cuba, onde podemos ver a visita de Anthony Bourdain à casa de... Leonardo Padura:
Porque a música não pode vir toda do mesmo sítio, nem interpretada pelo mesmo pianista, partilho aqui o 2º movimento (Adagio) da Sonatina em Fá Maior, de Beethoven, aqui interpretada por Jeno Jandó.
2 minutos e 15 segundos de uma beleza invulgar e com ecos infinitos.
Descoberta no filme, cuja recomendação aqui vos deixo, A Mulher de Tchaikovsky (2023), partilho mais uma lágrima de sangue deste génio russo, interpretada pelo pianista habitué cá do blog, Nikolay Lugansky:
Nos dias que correm, acelerados e amnésicos, o valor da originalidade é cimeiro.
Sempre achei mais engraçado o contrário da originalidade, ou seja, o ser o último a fazer algo, como Rachmaninov.
Uma biografia de Michael Scott sobre o músico tem o título "Rachmaninoff: The Last of the Great Romantics". O último dos grandes românticos. Depois dele, mais nada. Depois de Rachmaninov, mais ninguém pode, soube ou quis ser romântico. Poderoso, não diriam?
Torrencialmente romântica, visceralmente russa, segue abaixo uma peça-amostra da chave histórica do Romantismo, escura, emotiva, filosófica, a Elegia em Mi bemol menor, composta quando Rachmaninoff tinha apenas 19 anos e aqui tocada pelo virtuoso Nikolai Lugansky: