Premonições Amarantinas: Vol II
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Task (2025)
"[Anthony Grasso] - See, here’s a question I always had. Priest gives you your penance… and you get on your knees… and you say your Hail Marys and your Our Fathers. And then, what? All those sins, they just… they just disappear like they never existed? ‘Cause, I mean, God don’t seem like someone who forgets, right? So, is it more like when you finally stand before him… He’s all, “Well, we said they were forgotten. “But now that you’re here, Anthony, we got some things to talk about”? You ever done something you’re sure you can’t be forgiven for, Tom?
[Tom Brandis] - My son’s been sitting in a prison for 14 months, and I haven’t been to visit him once. Confession’s for humans. It’s a human practice to help us deal with the shame. Confession’s not for God’s sake. If you want to be forgiven… all you have to do is ask."
Task, Episódio 6
O papel de Deus e do sofrimento nos dramas policiais parece ter-se tornado num selo de qualidade: Sopranos, True Detective (Season 1), Luther e, agora, Task. O papel do mal genuíno, do castigo, do bem e da redenção alimentam com vigor dois mundos: o criminal e o espiritual.
Desde Dostoievski, em particular, desde o diálogo de Ivan com Aliocha n'Os Irmãos Karamazov, que o indivíduo não pode reclamar a desculpa de Eichmann. O sofrimento de outros não é traduzível por ordens, regras, regulamentos. Apenas restam, então, as hipóteses dos dois irmãos: a de Aliocha, que quer suportar com Ivan o sofrimento e o seu absurdo; e a de Ivan, que se revolta contra Deus, contra a ideia de um Mundo planeado de acordo com uma justiça divina.
O criador de Task, Brad Ingelsby, não se demite de pôr e responder por via das suas personagens às questões do abandono, do desprezo, da maldade. Não foge por portas travessas. A par do que fez em Mare de Easttown, Ingelsby não se esconde.
Parece que no streaming ainda temos quem não escreva apenas para cavalos.

Se há tempo em que se deve ler um noir, que outro poderá ser que não o Outono?
Termino agora mesmo o passeio por Um Passado Perfeito (em inglês, Havana Blue), o livro de abertura da série de histórias do detetive Mario Conde, conhecida em Portugal como o Quarteto de Havana ou, como o autor lhe prefere chamar, as Quatro Estações em Havana, escritas pelo autor do inesquecível O Homem que Gostava de Cães, Leonardo Padura.
No Outono, a memória do calor do Verão ainda é fresca, mas é também nesta altura que começamos a sair de casa de camisola aos ombros. Com folhas secas no chão e pores de um sol cujo brilho se extingue lentamente nos céus, o Outono é a decadência feita tempo.
Haverá livro mais outonal que um noir, noturno, frio, passado em Havana, cansada de calor, matizada e decadente? O momento para começar este Quarteto, sabia-o, era agora.
Para fechar, deste universo cubano de Padura, deixo três sugestões adicionais:
Não.
Pare o que está a fazer e meta-se na sala de cinema mais perto de si e veja o novo filme de Paul Thomas Anderson (PTA), Batalha Atrás De Batalha.
Gostou de Magnolia (1999), The Master (2012) ou de There Will Be Blood (2007)? Gosta do "The Dude", de The Great Lebowski? Gosta do que ainda se faz de bom em Hollywood? Vá ver este filme. Fora Christopher Nolan, PTA é talvez o melhor realizador da vaga pós-90's de da indústria americana que, pese embora o seu sucesso comercial, ainda são injustamente afastados da fama dos grandes reservada a Scorcese, Copolla ou Spielberg.
Esta vaga pós-90's compõe-se de realizadores que misturam um sentido estético e autoral forte e um conhecimento profundo e rigoroso do cinema e da sua técnica. Realizadores como Dennis Villeneuve, David Fincher, Damien Chazelle ou Robert Eggers são alguns exemplos, mas PTA é um colosso.
Abaixo, 4 vídeos para vermos melhor o génio de PTA:
Faça um favor a si próprio e vá ver Batalha Atrás De Batalha.
Com a sua estreia no passado dia 2 deste mês, em Veneza, no festival de cinema desta cidade, L'Étranger é o novo filme que François Ozon nos traz.
Apesar dos evidentes desafios apresentados pelo texto original de Albert Camus, O Estrangeiro, publicado em maio de 1942, pela Gallimard, trata-se de uma interseção de dois mestres. Dois mestres afastados no modo e no tempo, é certo, mas dois mestres de génio apesar de tudo. Interseção? Talvez uma colisão, mas digna da nossa mais alta expectativa.
Relido há dias, deixo abaixo uma breve síntese da noção identitária de Camus, o absurdo, retirada do ensaio O Mito de Sísifo publicado poucos meses depois, no mesmo ano, de O Estrangeiro:
"Um mundo que se pode explicar, mesmo com más razões, é um mundo familiar. Mas, pelo contrário, num universo subitamente privado de ilusões e de luzes, o homem sente-se um estrangeiro. Tal exílio é sem recurso, visto que privado das recordações de uma pátria perdida ou da esperança de uma terra prometida. Esse divórcio entre o homem e a sua vida, entre o actor e o seu cenário, e que é verdadeiramente o sentimento do absurdo."
Albert Camus, O Mito de Sísifo, p. 17
Agora que penso nisso, absurdo, absurdo, é não regressar também a Ozon este outono :)
"Guy told me one time: don’t let yourself get attached to anything you are not willing to walk out on in 30 seconds flat if you feel the heat around the corner."
Neil McCaulkey (Robert de Niro) em Heat (1995) de Michael Mann

Descoberta no filme, cuja recomendação aqui vos deixo, A Mulher de Tchaikovsky (2023), partilho mais uma lágrima de sangue deste génio russo, interpretada pelo pianista habitué cá do blog, Nikolay Lugansky:

Oferta de amigo, a leitura do momento é O Céu Que Nos Protege de Paul Bowles. Excelente ideia passar umas temporadas este verão no Norte de África, começando logo em Tânger, Marrocos.
Até ao fim do livro, ao fim do deserto, fica uma outra visita a esta cidade por outro escritor, o ícone do coolness contemporâneo, Anthony Bourdain:
Anthony Bourdain: Parts Unknown | Morocco (Tangier) | S01 E05 | All Documentary

A visão animalista e ambientalista espelhada no último filme de Ryusuke Hamaguchi, O Mal Não Está Aqui, distingue-se do muito ruído sobre o assunto que inunda o espaço mediático. Creio que foi nas Investigações Filosóficas que Wittgenstein escreveu algo como: mesmo se um leão conseguisse falar, nós não compreenderíamos o que ele diria. Extrapolando, um filme feito por um leão, ou por um veado, seria exatamente isso: incompreensível. É, portanto, na ausência-presença do mundo animal que o ambientalismo é retratado neste filme, de forma despretensiosa, sem dramatismos ou catastrofismos, a partir de um ponto de vista que me parece o mais honesto sobre matéria: o humano na sua contingência e limitação.
O Mal Não Está Aqui retrata uma comunidade rural japonesa, habitante da fictícia vila de Mizubiki, a quem é apresentada um projeto de turismo glamping que, por todos os motivos concebíveis e mais alguns, impacta negativamente o equilíbrio natural daquela comunidade. E este impacto não passa despercebido.

Como se vê na longa cena da sessão pública de apresentação do projeto, este não dá garantias ambientais mínimas, nem suficientes. Enquanto os verdadeiros autores deste projeto se escondem, enviam atores de uma agência de talentos para apresentá-lo à comunidade de Mizubiki, que, por sua vez, têm ordens para, com pretensa compreensão, não cederem a nenhuma das reivindicações da população. Às críticas certeiras dos locais, respondem: “levantou uma questão válida. Teremos isso em conta”. O resultado é o esperado: são dizimados. Não convencem nem um habitante da vila. Mais tarde, depois de narrarem ao CEO do projeto o rotundo falhanço em convencer a população, os atores da agência veem, incrédulos, este mesmo CEO a descrever o que ouviu como um esmagador sucesso. “Mostrámos comunicação com a comunidade”, esclarece ele. Parece uma conversa de surdos. Até os pobres atores ficam admirados. O campo de glamping vai avançar, doa a quem doer. Fica-se a saber nesta reunião que o que interessa é captar o subsídio para esta exploração. O resto, que se dane.

É tudo revoltante, idiota e de um abjeto mau-gosto. Mas o ponto do filme, coerentemente, não é esta narrativa humana. A narrativa real é anterior a esta.
Se a narrativa se prende nos eventos humanos, o trabalho de lenhador de Takumi (Hitoshi Omika), a assembleia de cidadãos para discutir o novo projeto de glamping, a noite na casa da floresta, a refeição no restaurante de udon, os passeios na floresta, um duplo plano narrativo desenvolve-se numa ausência que atravessa o filme desde o seu início, o mundo animal. O mundo dos veados é abordado quase inteiramente apenas numa conversa de carro e em episódios meio desligados e sem consequência na narrativa: a passagem por um cadáver de veado morto num passeio pela floresta, rastos de pegadas seguidos na neve, ou personagens que ouvem tiros numa floresta vizinha, longe da floresta protagonista do filme.

O momento clímax do filme, o ataque à filha de Takumi, Hana, não passa pela tela e apenas pode ser presumido pelo espetador. É já perto do fim do filme que há o derradeiro “encontro”, a derradeira comunicação, ou tentativa de comunicação entre o humano e o animal, na cena com o olhar do veado.

Por um lado, o espetador é levado a sentir compaixão por aquele animal, os seus olhos parados, absortos podem levar quem os veja a pensar que este veado se sente perdido, aflito pela sua cria baleada, ou a sentir um vasto rol de emoções nobres e politicamente recomendáveis. Por outro lado, o olhar do veado é, e este é o ponto conseguido deste filme, um confronto com um mundo que nos é, por natureza, incomunicável, incognoscível, incomensurável. Nunca poderemos adivinhar aquilo que um veado poderá experienciar, pensar ou sentir porque tais ações são humanas.

O filme termina como começa: filmando as copas das árvores em andamento. Nesta cena final, ao contrário da inicial, ouvimos um arfar humano (será?). Talvez um momento de rara proximidade e comunhão entre o humano e o animal: os sentidos, a perceção, a vida. Se acreditamos que o que distingue o Homem e o Animal é o pensamento, a comunidade Homem-Animal terá de ter lugar fora deste, como nos sentidos, nas sensações, no instinto ou noutro plano qualquer. A esta luz, a visão das copas das árvores da floresta no início do filme, vistas do chão, ganha um novo significado. Em primeira instância, podemos pensar que se trata da visão de um “narrador impessoal” ou de uma personagem do filme. Contudo, se pensarmos outra vez, algo se afigura evidente: esta visão da floresta é tanto humana, quanto animal. O ponto de vista será de Takumi ou do veado progenitor? Ambos encaixam.

Este é o mérito de Hamaguchi com este filme. Não é a narrativa que peca por ter uma estrutura já antes vista (o que põe em evidência o ponto que refiro e acaba por acrescentar ao mérito do realizador). Não são as personagens humanas cuja sua caracterização nem sempre é bem conseguida e com quem o espectador dificilmente consegue gerar uma empatia para além de níveis mais intuitivos. Não é apenas um conto exemplar do perigo que há na agressão do Homem à Natureza. Hamaguchi, neste domínio, não deixa nada ao acaso. Corta as cenas e a banda sonora de forma abrupta, não narrativa.

O movimento (impossível) para além do humano é, neste filme, direcionado para o não-narrativo. Tudo, mais ou menos bem construído, é feito de forma a apontar a objetiva para aquilo que, por excelência, não pode ser retratado, um mundo não humano, e que se manifesta aos nossos olhos ultimamente como limite, ausente, trágico, mas que é também responsável por um impulso visceral e universal humano, comum a todo o espectador. A forma como este ascende das profundezas insondáveis do espetador e emerge na sua consciência pode assumir várias formas, todas humanas, muitas ultimamente narrativas. No entanto, Hamaguchi aponta para o anterior a isso e que nos é invisível, impossível de captar.
Como todas as tarefas impossíveis e ingratas exigem a quem as observa, Hamaguchi merece o nosso aplauso por isto. E também por nos mostrar que, talvez, nestas muito propaladas matérias ambientalistas, ao contrário do que é mais comum ouvirmos, toda a narrativa é insuficiente pois todo amor à natureza é, por natureza, inexplicável aos patos bravos que vivem longe dela.
