Ensaio sobre a Cegueira

“Dentro de nós, há uma coisa que não tem nome, essa coisa é o que somos”
José Saramago, Ensaio sobre a cegueira, p. 262
O que herdamos dos nossos avós toca-nos não apenas pela semelhança ou por terem sido objeto de tão grande amor, medrado em tão tenra idade. O que herdamos deles toca-nos porque remonta a um passado comum, tão nosso como deles. Esta ligação a eles é algo que, mais do que qualquer outra coisa, pressupõe uma ancestralidade da nossa vida, antes tão recente e imediata. Tomamos consciência que a nossa identidade, o que somos, afinal, existe há anos, décadas, gerações.
Foi, portanto, com gosto que tomei consciência que, a par de mim, também os meus avós tiveram curiosidade em ler alguém que escrevia sem pontos, de quem se dizia não saber escrever e que saíra do país em público desacordo com o Estado Português. Esse alguém, abertamente odiado por alguns e privadamente apreciado por muitos, era José Saramago. Durante as partilhas, entre discos de jazz, vinis da Deutsche Grammophonics com gravações da Finlândia de Sibelius e outros livros que eram repartidos entre irmãos e sobrinhos, tive a sorte de ouvir um silêncio na sala quando perguntei: alguém quer levar os do Saramago? Eram eles O Ensaio sobre a Cegueira, Todos os Nomes, A Caverna e A Jangada de Pedra. O meu avô, sei-o porque vi e revi as estantes do escritório daquela casa desde que tenho memória, tinha os livros todos do Conrad; os clássicos da ciência política que dei na universidade e que só por causa dela consegui reconhecer as lombadas há anos lá quedadas, Isaiah Berlin, Tocquevillle e Popper; as obras completas do Eça e do Pessoa, a correspondência do António Nobre e algumas edições pesadíssimas d’Os Lusíadas. É claro que quis saber que livros o meu avô escolheu do Saramago. Em que ano os comprara? Que edições eram? Teriam alguma coisa anotada? Antes disto tudo, quem o terá lido?
O livro foi prontamente lido pelos dois leitores cá de casa. A par de outros casos raríssimos, a literatura que caracteriza o Ensaio sobre a cegueira junta-se ao alvo predileto da sua mais fação alta: os pageturners. Tantas vezes separados, desabituámo-nos de considerar coabitáveis a qualidade literária e uma leitura sua mais voraz. Ou temos em mão um incunábulo de exegese infinita, quasi-espiritual, ou uma literatura popularucha, de cordel, feita para glutões de paladar embrutecido.
Mas, claro, sabemos que esta é uma separação falsa. Nem esforço, nem velocidade determinam qualidade. Claro, os Grandes leitores dirão que toda a literatura é pageturner, mas os verdadeiros leitores saberão que não é verdade. Saberão que não devemos dar cegamente a nossa palavra pelo gosto de outrem e que, no fim do dia, cada um come do que gosta. Como costumo dizer: amigos, amigos, livros à parte.
O Ensaio integra, a meu ver, um grupo de livros que sintetiza ambos. Li-o este ano com a sofreguidão de um jejuante numa noite de consoada, como quando li a Submissão do Houellebecq ou A Pérola do Steinbeck. Eu sei, discutíveis. Mas também sei que rapidez não é predicado absoluto de contacto com a obra. Ainda ia a meio da leitura e cedo apercebi-me que não bastava aplaudir o valor da metáfora evidente na obra: que podemos ter os olhos em perfeita condição e ainda estar cegos. Estar cegos pelos nossos instintos; que, sem as aparências, a sociedade comportar-se-ia de maneira muito diferente; que a solidariedade humana é rapidamente identificável no abstrato, mas rara e opaca no particular. A pergunta era: o que é que eu não estou a ver?

José Saramago
Neste livro sem nomes, há um momento em que um personagem, pouco tempo depois de cegar, vai ao espelho da sua casa de banho: “estendeu a mão até tocar no vidro, sabia que a sua imagem estava ali a olhá-lo, a imagem via-o a ele, ele não via a imagem” (Ensaio, p. 38). Num cenário de abandono quase total do mundo, os recém-cegos sentem toda a fragilidade e a queda de estruturas sociais antes inamovíveis, como os princípios básicos de convivência pública, as leis do Estado, dos mercados e da consciência. Estas imagens, que olhavam por eles, cobrem-se de uma névoa branca, tornando-as distantes, invisíveis.
Ao contrário do que possa parecer, a incapacidade desta sociedade invisual não é total. Vícios e virtudes deambulam na história, corajosos tornam-se cobardes e egoístas em salvadores altruístas. Novas estruturas sociais emergem espontaneamente no caos deste mal branco. Afinal, nem só de maldade é feita a gente à nossa volta. Diz a quarta capa deste livro: “Se puderes olhar, vê. Se puderes ver, repara”.
“Em terra de cegos, quem tem olho é rei.” Será? Qual será a vista de um monarca que vê o colapso moral e física da sua sociedade? A decrepitude instalada e o caos nas ruas? Ou fraternidade no meio de quem é invisível? É notável lembrarmo-nos que este livro é de 1995, 25 anos antes da pandemia COVID-19 que, longe sendo comparável ao dano duma cegueira epidémica, fechou países nas suas fronteiras e famílias nas suas casas.
A edição do meu avô é de 1999, um ano após o Nobel, não vem assinada, nem anotada. Traz consigo uma daquelas relíquias da bibliofilia de fim do último século, um pequeno bilhete entre a capa e o anterrosto, com o título “talão de reposição”. Como em muitas questões de família, não encontrei no livro respostas às minhas interrogações além dos dados bibliográficos. Pela lisura da lombada, creio até ter sido o primeiro leitor deste exemplar. Dou por mim à procura de respostas sobre ele dentro de mim. Não deixa de ser curioso, apercebo-me agora, ter imaginado a maior parte das cenas do Ensaio no bairro de Alvalade, nas Avenidas do Brasil, da Igreja e de Roma.

Avenida do Brasil, de Jorge Segurado
Tinha 7 anos quando o primeiro dono deste livro morreu. Desde então, faço por lembrar-me da sua cara e da sua voz, como se também a memória dele se tivesse esbatido, cada vez mais alva, longínqua. Às vezes, ainda me pergunto se estou a falar com ele:
“não hei-de esquecer a tua voz, Nem eu da tua cara”
José Saramago, Ensaio sobre a Cegueira, p. 141


