Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Amigos, amigos, livros à parte

Amigos, amigos, livros à parte

1954: Feminism before it was cool

mw-1920 (1).webp

Foto de Rui Ochoa em Expresso

 
"O nascimento de Germa não lhes causava entusiasmo de maior, pois ela seria uma pequena fidalga educada e crescida em ambiente diverso, e sem muitas probabilidades de que a identificassem com o próprio sangue. "Os filhos de minhas filhas, meus netos são: os fiIhos dos meus filhos, serão ou não" - dizia, asperamente, Maria. Não havia nisto intenção insultuosa, ou, se a houvesse, seria somente por influência e controle de Quina, que, com o tempo, tomara sobre a mãe um intenso domínio. E um dos aspectos mais característicos de Quina era desprezar por princípio todas as mulheres. Não que pessoalmente as odiasse, mas, na generalidade, atribuía-lhes uma categoria deprimente, e, como elemento social, não as considerava. A verdade era que, toda a vida, ela lutara por superar a sua própria condição, e, conseguindo-o, chegando a ser apontada como cabeça de família, conhecida na feira e no tribunal, procurada por negociantes, consultada por velhos lavradores que a tratavam com a mesma seca objectividade usada entre eles, mantinha em relação às outras mulheres uma atitude não desprovida de originalidade. Amadas, servindo os seus senhores, cheias dum mimo doméstico e inconsequente, tornadas abjectas à custa de lhes ser negada a responsabilidade, usando o amor com instinto de ganância, parasitas do homem e não companheiras, Quina sentia por elas um desdém um tanto despeitado e mesmo tímido, pois havia nessa condição de escravas regaladas alguma coisa que a fazia sentir-se frustrada como mulher. Na generalidade, amava o homem como chefe de tribo e pelo secular prestígio dos seus direitos. Mas ria-se de todos eles, um por um, pois lhes encontrava inferioridades que ela, pobre fêmeazinha sem mais obrigações do que as de chorar, parir e amar abstractamente a vida, pudera vencer, não tanto por desejo de despique como por impulso de carácter, e utilizando para isso, sabiamente, tanto as suas fraquezas como os seus dons."
 
Agustina Bessa-Luís, A Sibila (1954 [2017]), p. 105-106
publicado às 10:00

Premonições Amarantinas: Vol III

Uma última e terceira premonição do espírito amarantino: Teixeira de Pascoaes.

Teixeira-de-Pascoaes-1068x750.jpgEstátua de Teixeira de Pascoaes em Amarante, localizada na Alameda Teixeira de Pascoaes, junto ao Museu Municipal Amadeo de Souza-Cardoso.

Um escritor de memória? De espírito? De letras próprias? Talvez de tudo. Talvez um mestre dos mestres. Dizia Pessoa sobre Pascoaes:

“Suponha que o Romantismo inglês, em vez de retroceder até Tennyson-Rossetti-Browning, tivesse progredido directamente de Shelley; o resultado seria um inédito sublime moderno. Se for capaz de conceber um William Blake imerso no espírito de Shelley e escrevendo através dele, terá talvez uma ideia mais justa do que quero dizer.”

Páginas Íntimas, 129

Partilho convosco, como o fiz nas premonições amarantinas antigas, o link para um documentário sobre a obra São Paulo, de Pascoaes: https://arquivos.rtp.pt/conteudos/sao-paulo-de-teixeira-de-pascoaes/.

São Paulo, de Teixera de Pascoaes - RTP Arquivos

Deixo, por último, um sentido agradecimento à RTP pelo seu trabalho excelente, exemplar mesmo, com o Arquivo RTP e a RTP Play. São duas plataformas que respondem a um impulso primário da nossa vontade mais imediata de inquirir "como é que isto não existe ainda?". Pois existe e é, vejam bem, grátis.

publicado às 10:00

Premonições Amarantinas: Vol II

A viagem ao Norte não termina em Agustina. 
 
Guiados pelo cuidadoso trabalho de anos de Helena Freitas e com os comentários de vozes como Isabel Pires de Lima e Pedro Cabrita Reis, este segundo documentário apresenta-nos Amadeu de Souza Cardoso como pintor, ambicioso artista de vanguarda, mas também epistológrafo de rara delicadeza (para quando uma reimpressão ou uma nova publicação das cartas de Amadeo?).
 
Como é mostrado em À Velocidade da Inquietação, Amadeo morreu tragicamente jovem, apenas com 33 anos, deixando um futuro que podemos vislumbrar hoje apenas por via da nossa imaginação. A par do que sucede com tantos outros nomes que nos abandonaram cedo demais (como Cesário Verde, António Nobre, Santa-Rita Pintor ou Henrique Pousão), não podemos ver a sua obra sem darmos por nós angustiados, irritados pela sua precoce ausência. Onde está este espírito que ainda hoje nos vê com tanta clareza? Que nos sondou décadas antes de nascermos e que nos fala tão perceptivelmente? 
 
Resta citar o texto de Pessoa aquando da morte de Mário Sá-Carneiro, ambos seus colegas da Orfeu:

"Morre jovem o que os Deuses amam, é um preceito da sabedoria antiga. E por certo a imaginação, que figura novos mundos, e a arte, que em obras os finge, são os sinais notáveis desse amor divino. Não concedem os Deuses esses dons para que sejamos felizes, senão para que sejamos seus pares. Quem ama, ama só a igual, porque o faz igual com amá-lo."
 

 

 

 

publicado às 10:00

A herdeira de Rachmaninov

Se lhe aconselhasse a aumentar o volume para ouvir música clássica, provavelmente pensaria que estaria a pô-la/lo a ouvir a 5ª Sinfonia de Beethoven ou a Cavalgada das Valquírias de Wagner, certo?

Pois, não. A obra que lhe trago tem menos de três minutos e é tocada só com um piano. Sem grandes orquestras e aparato. Só com duas mãos, a magistral Yuja Wang traz-nos o desmoronar de uma montanha para dentro do auditório. Com apenas duas mãos, Wang enche a sala de trovejos, de marés revoltas de tempestade. O caso é sério. Talvez não seja única, nem a primeira, mas creio que estou a medir bem as minhas palavras ao chamá-la a mais digna herdeira de Rachmaninov.

 

Haverá música se houver amanhã? Relembro as palavras de Emir Kustorica sobre uma outra arte (outra?):

"My purpose is to make a movie to make you warm. To give you some heat. Now, this rational world has become a place where only what is cool is good. Do you cut the movie on the basis of the beat of modernity or the basis of the beat of your own heart?

 

publicado às 10:10

Premonições Amarantinas: Vol I

Decidi encerrar 2025 com uma última viagem: Amarante.
 
Viajar ao norte é um acontecimento para qualquer pessoa, para qualquer português. Não por acaso dizemos de quem está desorientado ou perdido que perdeu o norte. Pois Amarante, para mim, é o Norte no seu estado mais puro.
 
Deixo, por isso, três sugestões de documentários sobre personalidades portuguesas muito amarantinas:
 
  • Agustina Bessa Luís
  • Amadeo Souza Cardoso
  • Teixeira de Pascoaes
 
Se estou a conhecer a primeira pelo seu célebre livro de '54, o segundo já colhe a minha admiração pelos seus quadros (e cartas!) há quase 20 anos. O último, mestre assumido por Fernando Pessoa, ainda é apenas um objetivo, com toda a curiosidade que tal condição de promessa acarreta.
 
Com os comentários de João Bénard da Costa, Manoel de Oliveira, Mónica Baldaque e, entre outros, da própria, deixo-vos o primeiro documentário, sobre a insubstituível Agustina:
 

publicado às 10:00

Mais sobre mim

imagem de perfil

Arquivo

  1. 2026
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2025
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D

Pesquisar

 
Em destaque no SAPO Blogs
pub