O terceiro Duo da Reinvenção: John Field e Magdalena Hoffman.
Apesar da indiscutível beleza da harpa enquanto instrumento musical para o público leigo (é, talvez, o mais angelical que podemos conceber, disso não há dúvida), a verdade é que não são assim tantas as versões disponíveis com solos ou adaptações para este instrumento. Hoffman vem pôr fim a este vazio. Vem confirmar que a harpa é um instrumento injustamente esquecido, especialmente apto para tocar noturnos, por exemplo, mas não só.
É certo que este álbum Nightscapes, da Deutsche Grammophon, não constitui propriamente uma recomposição dos noturnos nele tocados, como os de Chopin ou Field, nem das peças de Britten, mas a verdade é que a escassez de gravações de qualidade destas e outras peças em harpa tornam este álbum numa nova leitura sobre peças tão já conhecidas nossas.
Esta ponte alada saiu em 2022, mas começou no século XVIII, com John Field, e atravessa o XIX, com Frédéric Chopin, e o XX, com Benjamin Britten.
Nesta quarta-feira, uma novidade a sair este mês de Novembro, dia 21, pela Deutsche Grammophon, com o título Ravel Recomposed. O Duo de hoje é, sim, adivinharam, composto por Maurice Ravel, mas também por Victor Le Masne.
Nesta versão de Le Masne, a flauta transversal que abre a peça Bolerodesfaz-se em ecos, evaporando-se como uma memória distante, mas sempre levemente presente. A distorção da voz de Rahim Redcar (Christina and the Queens) é eletrónica, mas flutua. A melodia tão conhecida desta dança orquestral vai se mostrando com desvelo, reimaginada, mais pop, contemporânea.
Esta ponte entre 1928 e 2025 é uma daquelas cuja eletricidade e o ritmo iluminam os passeios noturnos de quem gosta de sonhar à chuva e, talvez, de deambular por entre memórias.
Esta semana, trago 3 reinvenções de peças da música clássica. As reinvenções, apresento-as como os Duos da Reinvenção. Nestas, um antigo é "pegado" por um contemporâneo de forma a aparecer-nos sob uma nova luz, um novo ângulo. Ao contrário de um renascimento ou de uma ressureição, que pressupõe uma morte, estas reinvenções não substituem as antigas. Pelo contrário, chamam a nossa atenção para elas.
Hoje, segunda-feira, partilho convosco a recomposição de Max Richter das Quatro Estações, originalmente composta por Antonio Vivaldi, no século XVIII.
Haverá ponte mais bela que esta, entre os anos de 1725 e 2012?