Porque a música não pode vir toda do mesmo sítio, nem interpretada pelo mesmo pianista, partilho aqui o 2º movimento (Adagio) da Sonatina em Fá Maior, de Beethoven, aqui interpretada por Jeno Jandó.
2 minutos e 15 segundos de uma beleza invulgar e com ecos infinitos.
Abri o verão com um amigo reabilitado: John Steinbeck. De Vila Real de Santo António a Sines, passando por Porto Covo, O Inverno do Nosso Descontentamento foi uma excelente companhia. Uma história que se bebe no verão como um tónico: fresca e revigorante.
Não conheço a obra do autor de lés-a-lés. No entanto, em maio deste ano, num período de convalescença, li Ratos e Homens e reli A Pérola. Este último li-o no 8º ano como leitura obrigatória que foi, na altura, verdadeiramente penosa. Decidi-me, pois, a fazer as pazes com este americano. Steinbeck, ou melhor, algum Steinbeck, ganha mais valor ainda na vida adulta. Temas como a ganância, o poder, as lutas individuais e familiares pela dignidade são assuntos que, por norma, só se nos apresentam em toda a sua força (esperamos) na vida adulta. Certamente, não antes do 8º ano.
Diz-se que O Inverno do Nosso Descontentamento (1961) é um regresso do autor ao Steinbeck de Ratos e Homens (1937) e d’A Pérola (1947). E, admitindo que os livros escritos entretanto divergem por direções vizinhas, tal até pode ser verdade. Mas, como o próprio Steinbeck e a literatura nos mostram, nunca um regresso nos devolve intactos, iguais a como partimos.
Os três livros baseiam as suas narrativas numa visão pessimista da sociedade. Os quatro personagens principais Lennie e George (ReH), Kino (P), e Ethan (IdND) estão ligados a uma humanidade antiga, comunitária, idílica, digna, com que facilmente qualquer leitor se relaciona. Cada um dos protagonistas é, à sua maneira, amigo dos seus amigos, leal à sua família, cordato com os seus vizinhos e, muitas vezes, ligado aos seus antepassados. Por natureza, não encontram valor em aldrabar o chefe, exceto em raríssimas circunstâncias e sempre em defesa de valores mais elevados, nobres. São homens humildes, misfits, sem ilusões de grandeza; talvez desajeitados como Lenny, errantes como George, ou ingénuos como Kino, mas fundamentalmente o que chamamos de “bons corações”.
O desfecho de Lennie, George e Kino não são para aqui chamados, mas a “realidade”, o dia-a-dia, chega-lhes pela pena de Steinbeck, caindo sobre cada um deles com um brutal estrondo de malícia, cinismo, inveja e avareza. O ethos comunitário que os protagonistas representam é prepotentemente atropelado pelo desprezo de quem pode e manda.
Ethan, o protagonista d’ O Inverno do Nosso Descontentamento, não escapa a esta provação, mas de uma forma diferente. Ao contrário de Lennie, George e Kino, o pior não está para vir, já aconteceu. Quando chegamos a New Baytown, cidade portuária onde decorre a ação, Ethan, orgulhoso descendente de uma antiga família de New Baytown, os Hawley, já perdeu o seu negócio e as riquezas que o seu apelido lhe legou:
“Só conservou o nome, de resto a única coisa que lhe interessava”
John Steinbeck, O Inverno do Nosso Descontentamento, p. 50
De várias maneiras, a realidade diz a Ethan que não se deve contentar com a posição que ocupa na vida: é um mero caixeiro empregado por um emigrado italiano macaroni, Maruzo. Mr. Baker, também descendente de uma antiga família da New Baytown, rico, dono do banco e de meia cidade, diz a Ethan que não se pode contentar com a sua situação: faz o trabalho todo na mercearia do italiano, fala com os clientes e com os fornecedores, abre e fecha a loja, guarda o dinheiro e trata dos livros de contas; faz tudo e é Maruzo quem leva o dinheiro no fim do dia. A mulher de Ethan, Mary, suplica-lhe que invista o dinheiro que ela herdou e que Ethan guarda para a eventualidade de uma emergência futura. A filha pergunta-lhe “quando estás a pensar ficar rico, pai?” e o filho só se foca em esquemas para se tornar famoso. Danny, um antigo amigo próximo de Ethan, quase seu irmão, é agora um bêbado perdido nas ruas de Baytown, incapaz de se levantar.
O cerco aperta-se e diz de forma clara a Ethan que as coisas não podem ficar como estão. Ninguém quer que fiquem, exceto ele. Ethan responde a Mary, sua mulher, mas ela ignora:
“Não deixes que a fortuna estrague a doçura da nossa pobreza.
(…)
Só existem duas medidas: não ter dinheiro e não ter dinheiro suficiente.”
John Steinbeck, O Inverno do Nosso Descontentamento, p. 127
De uma forma ou de outra, o mundo à volta de Ethan muda e o único caminho que se afigura possível para regressar à partida exige que se torne num cínico, num sonso, que se relacione e estime relações de proximidade com pelintras e homens que antes desprezava, que a única estima que ganhe dos outros seja pela força e pela intimidação. Em suma, que se esqueça de quem sempre foi. E, assim, começa o declínio trágico, silencioso, consciente e cheio de dúvidas de Ethan. Este lento definhamento de Ethan lembra, aliás, uma passagem de Kierkegaard:
«The greatest hazard of all, losing the self, can occur very quietly in the world, as if it were nothing at all. No other loss can occur so quietly; any other loss - an arm, a leg, five dollars, a wife, etc. - is sure to be noticed»
Søren Kierkegaard, The Sickness Unto Death: A Critical Psychological Exposition for Upbuilding and Awakening, pp. 32-33
Steinbeck retrata aquilo que se cunhou, e comumente se associa a Max Weber, de “jaulas de ferro” (“iron cages”), mecanismos presentes na sociedade e no mercado que não nos permitem ser bons e empáticos e sobreviver ao mesmo tempo, bem alimentados, nutridos, sãos. Em concorrência, num cenário de finitude de recursos, o altruísta só pode ser tolo. Não restam hipóteses a Ethan além do desprezo ou da inveja dos seus e dos demais. No mundo de New Baytown:
“[O] sucesso não merece censura (…) Poder e sucesso estão acima da moralidade e da crítica. O que se faz não é nada, mas a maneira como se age e o nome que se dá aos nossos atos é que é tudo. Os homens estão munidos de um dispositivo interno que os faz parar e os castiga? Parece que não. O único castigo é insucesso."
John Steinbeck, O Inverno do Nosso Descontentamento, p. 204
Esta visão pessimista presente no Invernodo Nosso Descontentamento já vem detrás. É visível, além de qualquer dúvida, ao longo das obras de Steinbeck, n'A Pérola e em Ratos e Homens, uma incompatibilidade entre a voracidade do mundo corporativo-financeiro e uma consciência empática e de genuína camaradagem:
“Um trabalhador não precisa de juízo para ser bom tipo. Às vezes, até me parece que é o contrário. Veja, um tipo esperto… quase nunca é um camarada que preste.”
John Steinbeck, Ratos e Homens, p. 43
O desfecho d’O Inverno do Nosso Descontentamento vai contra o moralismo habitual destas histórias, mas também contra o que se podia esperar do Steinbeck de Ratos e Homens e d’A Pérola. Sem pedagogia excessiva, nem dramatismos por parte do autor, a verdade é que o fim desta história talvez tenha sido a gota de água para o comité sueco.
Há um último reduto, uma identidade ancestral, uma verdadeira chama em Ethan, e talvez em cada um de nós, neste mundo de jaulas e de ferro, de cinismo e desprezo, de competição e fome negra:
«A minha luz extingue-se. Não há nada mais negro que um morrão.
“Quero voltar para casa”, disse a mim mesmo, “não propriamente para a parte da casa que até há pouco habitava, mas sim para aquela parte de onde vem a luz.”
Quando a luz se apaga, a escuridão é maior do que se nunca tivesse brilhado a claridade. O mundo está cheio de destroços enegrecidos. O melhor caminho (…) consiste em saber que há um tempo em que se impõe uma decente e honrosa retirada, sem drama nem castigo para si mesmo ou para os seus (…)
Tinha de voltar para entregar o talismã ao seu novo proprietário. Senão, uma outra luz poderia apagar-se»
John Steinbeck, O Inverno do Nosso Descontentamento, p. 302
O amor ao próximo, a amizade, a camaradagem não impossibilitadas pela agressão deste mundo, mas como respostas a ela. Steinbeck mostra à humanidade, outra vez, que há altruísmo além da desilusão e esperança além da condenação do mundo. Que há amizade sincera e que a dignidade é tão mais visível quanto mais silenciosa for.
Todos sabemos que o mundo não gira à volta de Estocolmo, mas, discussões à parte, não deixa de ser revelador a publicação d’O Inverno do Nosso Descontentamento em 1961 e atribuição do Prémio Nobel ao seu autor em 1962.
Bibliografia
Kierkegaard, Søren. The Sickness Unto Death: A Critical Psychological Exposition for Upbuilding and Awakening. Princeton, New Jersey: Princeton University Press, 1980.
Steinbeck, John. A Pérola. Lisboa: Livros do Brasil, 2015.
—. O Inverno do Nosso Descontentamento. Lisboa: Livros do Brasil, 2015.
—. Ratos e Homens. Lisboa: Livros do Brasil, 2017.
Descoberta no filme, cuja recomendação aqui vos deixo, A Mulher de Tchaikovsky (2023), partilho mais uma lágrima de sangue deste génio russo, interpretada pelo pianista habitué cá do blog, Nikolay Lugansky:
Oferta de amigo, a leitura do momento é O Céu Que Nos Protege de Paul Bowles. Excelente ideia passar umas temporadas este verão no Norte de África, começando logo em Tânger, Marrocos.
Até ao fim do livro, ao fim do deserto, fica uma outra visita a esta cidade por outro escritor, o ícone do coolness contemporâneo, Anthony Bourdain:
"(...) [E]sta é a lei da pérola: assim como numa concha um grão de areia incomoda, sendo neutralizado pela madrepérola e tornando-se por fim uma preciosa jóia para nós, também todas as linhas do desenvolvimento da nossa psique se envolverão em torno desse ponto mais fraco. Cada anomalia (...) estimula determinada actividade psíquica e um desenvolvimento particular, concentrando-os em seu redor. O que nos molda não é o que há forte em nós, mas, precisamente, a anomalia, aquilo que é fraco e não é aceitável."
Empúsio, p. 302, Olga Tokarczuk
“Quando se fala da vida de um homem ou de uma mulher, quando se faz uma recapitulação ou um resumo, quando se conta a sua história e a sua biografia, seja num dicionário ou numa enciclopédia ou numa crónica ou numa conversa entre amigos, costuma contar-se o que essa pessoa fez e o que se passou com ela efectivamente. Todos temos no fundo a mesma tendência, ou seja, irmo-nos vendo nas diferentes etapas nossa vida como o resultado e o conjunto do que nos aconteceu e do que conseguimos e do que realizámos, como se fosse apenas isso que constitui a nossa existência. E esquecemos quase sempre que as vidas das pessoas não são só isso: cada trajectória é também composta pelas nossas perdas e os nossos esbanjamentos, as nossas omissões e os nossos desejos não concretizados, pelo que alguma vez deixámos de lado ou não escolhemos ou não conseguimos, pelas inúmeras possibilidades que na sua maioria não se chegaram a realizar - todas menos uma, afinal -, as nossas vacilacões e os nossos sonhos, os projectos frustrados e os anseios falsos ou fracos, os medos que nos paralisaram, o que abandonámos e nos abandonou a nós. As pessoas talvez consistam, em suma, tanto no que são como no que não foram, tanto no comparável e quantificável e recordável como no mais incerto, indeciso e esfumado, talvez sejamos feitos em partes iguais do que foi e do que podia ter sido.”
No Epílogo de Amanhã na batalha pensa em mim, p.333, Javier Marías
Marías e Tokarczuk, aqui, sobre os modos como podemos pensar a individualidade nos dias de hoje. Duas vozes sobre o papel formativo do erro e da frustração em tempos de dúvida, e de cinismo. Num mundo, nas palavras de Marías, “cada vez menos ingénuo”.
Amanhã na batalha pensa em mim foi escrito em 1994, 28 anos antes de Empúsio. Entretanto, muito mudou no mundo e na cultura ocidental. Factos fundamentais, claro, como o 11 de setembro, o primeiro epicentro histórico para as gerações de 90, mas também a evolução do pop, do rap, os telemóveis, as redes sociais, as torres de computadores, os tablets. É fútil enumerar. Tudo mudou. Todos estivemos cá para vê-lo. Mais importante, entre 1994 e 2022, Tokarkzuk ganhou o Nobel, em 2018. E, claro, em 2022, apenas 3 meses depois da publicação do último livro de Tokarczuk, Empúsio, em Junho de 22, falecia Marías, curiosamente, a 11 de setembro desse ano.
Mas qual a relação dos dois? Ou dos dois livros? Há alguma? Não sei, é possível. A ligação que sublinho aqui entre os dois são dois fenómenos muito próximos e difíceis de admitir, ou sequer de ver, na formação da persona de cada um de nós: as nossas dores profundas e o trabalho de anos que exercemos sobre elas, que Tokarczuk de maneira verdadeiramente bela designa de lei da pérola; e as nossas frustrações, indecisões, sonhos falhados que Marías nos chama a atenção para a sua existência não apenas varrida para debaixo do tapete ou reprimida e esquecida, mas viva, em igual medida responsável pela forma como pensamos, falamos e agimos. Claro, a simbologia da pérola não está socialmente desligada em Olga Tokarczuk, ativista vocal pelos direitos queer e pela comunidade LGBT. Mas creio que também podemos atribuir uma certa universalidade a esta lei de Tokarczuk: não num sentido de autoajuda, mas como lente, ferramenta de autoanálise. Para a atividade lenta, exigente e difícil (e não, não estou a falar da leitura) que é a autoanálise, não é esta nova visão sobre nós próprios um bom presente? É o tipo de concelho que não encontraremos num post de LinkedIn Não é uma apologia do “é na fraqueza que está a força”. É, sim, algo como “é na nossa fraqueza que parte de nós está”, sem apelo, sem mais-valia, sem gostos, sem likes, sem visualizações, sem comentários. Que por mais feio, ou belo, que um grão de areia possa ser, não se compara à beleza de uma pérola.
Por outro lado, nas palavras de Marías, o mundo visto nos media, nas notícias, nos jornais, nas redes sociais espelha muitas vezes o “resultado e o conjunto do que nos aconteceu e do que conseguimos e do que realizámos”: derbys de futebol, crimes hediondos, debates parlamentares, discursos eloquentes, promoções imperdíveis, partilhas, trendsandposts, carreiras fulgurantes, narrativas disseminadas. Num mundo inundado, a abarrotar de sentidos, com narrativas e identidades para dar e vender, a falta de autenticidade consolida-se silenciosa, mas irrevogavelmente.
A tendência para a urgência de definição individual torna-se cada vez mais e mais aguda. E Marías é feliz em relembrar-nos, além do trabalho de autoanálise sugerido por Tokarczuk, da nossa identidade naturalmente indecisa, indefinida, em construção, composta pelo que concretizámos, mas também pelo que falhámos. Além da análise que fazemos do nosso passado, Marías relembra-nos que perceber os outros exige vermos o equilíbrio possível que, nunca o assumindo, eles são. E, repito, estes falhanços têm de sê-lo verdadeiramente, não podem ser transformados em lições, vitórias morais, “findings”, “aprendizados”. A vida é aprendizagem, mas não só. É algo que, por definição, está em constante afastamento da nossa capacidade analítica. É algo que tanto se revelou no que somos, como no que podíamos ter sido. Somos assim desde os tempos que achámos que chegaríamos ao Sol com asas de cera.
Não deixa de ser curioso a lição presente na história de Ícaro falar da sua queda, e não para o seu voo. Tokarczuk ajuda a perceber:
“Se o senhor me perguntasse, meu jovem, o que é a alma, diria assim: a alma é aquilo que em nós é mais fraco.”