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Amigos, amigos, livros à parte

Amigos, amigos, livros à parte

Esperava teoria política, tropecei em literatura

 

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"Winston só se levantou daí a minutos. Começara a escurecer no quarto. Voltou-se para o lado da luz e ficou deitado a contemplar o pisa-papéis de vidro. O que constituia para ele inesgotável motivo de interesse não residia no fragmento de coral mas no interior do próprio vidro. Havia nele uma tal profundidade e, contudo, era quase tão transparente como o ar. Como se a superficie do vidro fosse a abóbada celeste, envolvendo um mundo minúsculo com a sua atmosfera inviolada. Tinha a sensacão de poder entrar nesse mundo, de estar afinal dentro dele, com a cama de mogno e a mesa de abrir,o relógio a gravura e o próprio pisa-papéis. O pisa-papéis era o quarto onde se encontrava, e o coral, as vidas dele e de Julia, imóveis numa espécie de eternidade, no coração do cristal."


George Orwell, 1984, p. 150

Capa de 1984

 

 

publicado às 18:28

Ensaio sobre a Cegueira

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“Dentro de nós, há uma coisa que não tem nome, essa coisa é o que somos”

José Saramago, Ensaio sobre a cegueira, p. 262

O que herdamos dos nossos avós toca-nos não apenas pela semelhança ou por terem sido objeto de tão grande amor, medrado em tão tenra idade. O que herdamos deles toca-nos porque remonta a um passado comum, tão nosso como deles. Esta ligação a eles é algo que, mais do que qualquer outra coisa, pressupõe uma ancestralidade da nossa vida, antes tão recente e imediata. Tomamos consciência que a nossa identidade, o que somos, afinal, existe há anos, décadas, gerações.

Foi, portanto, com gosto que tomei consciência que, a par de mim, também os meus avós tiveram curiosidade em ler alguém que escrevia sem pontos, de quem se dizia não saber escrever e que saíra do país em público desacordo com o Estado Português. Esse alguém, abertamente odiado por alguns e privadamente apreciado por muitos, era José Saramago. Durante as partilhas, entre discos de jazz, vinis da Deutsche Grammophonics com gravações da Finlândia de Sibelius e outros livros que eram repartidos entre irmãos e sobrinhos, tive a sorte de ouvir um silêncio na sala quando perguntei: alguém quer levar os do Saramago? Eram eles O Ensaio sobre a Cegueira, Todos os Nomes, A Caverna e A Jangada de Pedra. O meu avô, sei-o porque vi e revi as estantes do escritório daquela casa desde que tenho memória, tinha os livros todos do Conrad; os clássicos da ciência política que dei na universidade e que só por causa dela consegui reconhecer as lombadas há anos lá quedadas, Isaiah Berlin, Tocquevillle e Popper; as obras completas do Eça e do Pessoa, a correspondência do António Nobre e algumas edições pesadíssimas d’Os Lusíadas. É claro que quis saber que livros o meu avô escolheu do Saramago. Em que ano os comprara? Que edições eram? Teriam alguma coisa anotada? Antes disto tudo, quem o terá lido?

O livro foi prontamente lido pelos dois leitores cá de casa. A par de outros casos raríssimos, a literatura que caracteriza o Ensaio sobre a cegueira junta-se ao alvo predileto da sua mais fação alta: os pageturners. Tantas vezes separados, desabituámo-nos de considerar coabitáveis a qualidade literária e uma leitura sua mais voraz. Ou temos em mão um incunábulo de exegese infinita, quasi-espiritual, ou uma literatura popularucha, de cordel, feita para glutões de paladar embrutecido.

Mas, claro, sabemos que esta é uma separação falsa. Nem esforço, nem velocidade determinam qualidade. Claro, os Grandes leitores dirão que toda a literatura é pageturner, mas os verdadeiros leitores saberão que não é verdade.  Saberão que não devemos dar cegamente a nossa palavra pelo gosto de outrem e que, no fim do dia, cada um come do que gosta. Como costumo dizer: amigos, amigos, livros à parte.

O Ensaio integra, a meu ver, um grupo de livros que sintetiza ambos. Li-o este ano com a sofreguidão de um jejuante numa noite de consoada, como quando li a Submissão do Houellebecq ou A Pérola do Steinbeck. Eu sei, discutíveis. Mas também sei que rapidez não é predicado absoluto de contacto com a obra. Ainda ia a meio da leitura e cedo apercebi-me que não bastava aplaudir o valor da metáfora evidente na obra: que podemos ter os olhos em perfeita condição e ainda estar cegos. Estar cegos pelos nossos instintos; que, sem as aparências, a sociedade comportar-se-ia de maneira muito diferente; que a solidariedade humana é rapidamente identificável no abstrato, mas rara e opaca no particular. A pergunta era: o que é que eu não estou a ver?

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José Saramago

Neste livro sem nomes, há um momento em que um personagem, pouco tempo depois de cegar, vai ao espelho da sua casa de banho: “estendeu a mão até tocar no vidro, sabia que a sua imagem estava ali a olhá-lo, a imagem via-o a ele, ele não via a imagem” (Ensaio, p. 38). Num cenário de abandono quase total do mundo, os recém-cegos sentem toda a fragilidade e a queda de estruturas sociais antes inamovíveis, como os princípios básicos de convivência pública, as leis do Estado, dos mercados e da consciência. Estas imagens, que olhavam por eles, cobrem-se de uma névoa branca, tornando-as distantes, invisíveis.

Ao contrário do que possa parecer, a incapacidade desta sociedade invisual não é total. Vícios e virtudes deambulam na história, corajosos tornam-se cobardes e egoístas em salvadores altruístas. Novas estruturas sociais emergem espontaneamente no caos deste mal branco. Afinal, nem só de maldade é feita a gente à nossa volta. Diz a quarta capa deste livro: “Se puderes olhar, vê. Se puderes ver, repara”. 

“Em terra de cegos, quem tem olho é rei.” Será? Qual será a vista de um monarca que vê o colapso moral e física da sua sociedade? A decrepitude instalada e o caos nas ruas?  Ou fraternidade no meio de quem é invisível? É notável lembrarmo-nos que este livro é de 1995, 25 anos antes da pandemia COVID-19 que, longe sendo comparável ao dano duma cegueira epidémica, fechou países nas suas fronteiras e famílias nas suas casas.

A edição do meu avô é de 1999, um ano após o Nobel, não vem assinada, nem anotada. Traz consigo uma daquelas relíquias da bibliofilia de fim do último século, um pequeno bilhete entre a capa e o anterrosto, com o título “talão de reposição”. Como em muitas questões de família, não encontrei no livro respostas às minhas interrogações além dos dados bibliográficos. Pela lisura da lombada, creio até ter sido o primeiro leitor deste exemplar. Dou por mim à procura de respostas sobre ele dentro de mim. Não deixa de ser curioso, apercebo-me agora, ter imaginado a maior parte das cenas do Ensaio no bairro de Alvalade, nas Avenidas do Brasil, da Igreja e de Roma.

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Avenida do Brasil, de Jorge Segurado

Tinha 7 anos quando o primeiro dono deste livro morreu. Desde então, faço por lembrar-me da sua cara e da sua voz, como se também a memória dele se tivesse esbatido, cada vez mais alva, longínqua. Às vezes, ainda me pergunto se estou a falar com ele:

“não hei-de esquecer a tua voz, Nem eu da tua cara”

José Saramago, Ensaio sobre a Cegueira, p. 141

publicado às 11:17

Da Terra da Estrela

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"Muita neve cai na serraMuita neve cai na serraSó se lembra dos caminhos velhosQuem tem saudades da terraSó se lembra dos caminhos velhosQuem tem saudades da terra"

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Serra da Estrela, 26 de Dezembro de 2025

publicado às 10:00

1954: Feminism before it was cool

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Foto de Rui Ochoa em Expresso

 
"O nascimento de Germa não lhes causava entusiasmo de maior, pois ela seria uma pequena fidalga educada e crescida em ambiente diverso, e sem muitas probabilidades de que a identificassem com o próprio sangue. "Os filhos de minhas filhas, meus netos são: os fiIhos dos meus filhos, serão ou não" - dizia, asperamente, Maria. Não havia nisto intenção insultuosa, ou, se a houvesse, seria somente por influência e controle de Quina, que, com o tempo, tomara sobre a mãe um intenso domínio. E um dos aspectos mais característicos de Quina era desprezar por princípio todas as mulheres. Não que pessoalmente as odiasse, mas, na generalidade, atribuía-lhes uma categoria deprimente, e, como elemento social, não as considerava. A verdade era que, toda a vida, ela lutara por superar a sua própria condição, e, conseguindo-o, chegando a ser apontada como cabeça de família, conhecida na feira e no tribunal, procurada por negociantes, consultada por velhos lavradores que a tratavam com a mesma seca objectividade usada entre eles, mantinha em relação às outras mulheres uma atitude não desprovida de originalidade. Amadas, servindo os seus senhores, cheias dum mimo doméstico e inconsequente, tornadas abjectas à custa de lhes ser negada a responsabilidade, usando o amor com instinto de ganância, parasitas do homem e não companheiras, Quina sentia por elas um desdém um tanto despeitado e mesmo tímido, pois havia nessa condição de escravas regaladas alguma coisa que a fazia sentir-se frustrada como mulher. Na generalidade, amava o homem como chefe de tribo e pelo secular prestígio dos seus direitos. Mas ria-se de todos eles, um por um, pois lhes encontrava inferioridades que ela, pobre fêmeazinha sem mais obrigações do que as de chorar, parir e amar abstractamente a vida, pudera vencer, não tanto por desejo de despique como por impulso de carácter, e utilizando para isso, sabiamente, tanto as suas fraquezas como os seus dons."
 
Agustina Bessa-Luís, A Sibila (1954 [2017]), p. 105-106
publicado às 10:00

Premonições Amarantinas: Vol III

Uma última e terceira premonição do espírito amarantino: Teixeira de Pascoaes.

Teixeira-de-Pascoaes-1068x750.jpgEstátua de Teixeira de Pascoaes em Amarante, localizada na Alameda Teixeira de Pascoaes, junto ao Museu Municipal Amadeo de Souza-Cardoso.

Um escritor de memória? De espírito? De letras próprias? Talvez de tudo. Talvez um mestre dos mestres. Dizia Pessoa sobre Pascoaes:

“Suponha que o Romantismo inglês, em vez de retroceder até Tennyson-Rossetti-Browning, tivesse progredido directamente de Shelley; o resultado seria um inédito sublime moderno. Se for capaz de conceber um William Blake imerso no espírito de Shelley e escrevendo através dele, terá talvez uma ideia mais justa do que quero dizer.”

Páginas Íntimas, 129

Partilho convosco, como o fiz nas premonições amarantinas antigas, o link para um documentário sobre a obra São Paulo, de Pascoaes: https://arquivos.rtp.pt/conteudos/sao-paulo-de-teixeira-de-pascoaes/.

São Paulo, de Teixera de Pascoaes - RTP Arquivos

Deixo, por último, um sentido agradecimento à RTP pelo seu trabalho excelente, exemplar mesmo, com o Arquivo RTP e a RTP Play. São duas plataformas que respondem a um impulso primário da nossa vontade mais imediata de inquirir "como é que isto não existe ainda?". Pois existe e é, vejam bem, grátis.

publicado às 10:00

Premonições Amarantinas: Vol II

A viagem ao Norte não termina em Agustina. 
 
Guiados pelo cuidadoso trabalho de anos de Helena Freitas e com os comentários de vozes como Isabel Pires de Lima e Pedro Cabrita Reis, este segundo documentário apresenta-nos Amadeu de Souza Cardoso como pintor, ambicioso artista de vanguarda, mas também epistológrafo de rara delicadeza (para quando uma reimpressão ou uma nova publicação das cartas de Amadeo?).
 
Como é mostrado em À Velocidade da Inquietação, Amadeo morreu tragicamente jovem, apenas com 33 anos, deixando um futuro que podemos vislumbrar hoje apenas por via da nossa imaginação. A par do que sucede com tantos outros nomes que nos abandonaram cedo demais (como Cesário Verde, António Nobre, Santa-Rita Pintor ou Henrique Pousão), não podemos ver a sua obra sem darmos por nós angustiados, irritados pela sua precoce ausência. Onde está este espírito que ainda hoje nos vê com tanta clareza? Que nos sondou décadas antes de nascermos e que nos fala tão perceptivelmente? 
 
Resta citar o texto de Pessoa aquando da morte de Mário Sá-Carneiro, ambos seus colegas da Orfeu:

"Morre jovem o que os Deuses amam, é um preceito da sabedoria antiga. E por certo a imaginação, que figura novos mundos, e a arte, que em obras os finge, são os sinais notáveis desse amor divino. Não concedem os Deuses esses dons para que sejamos felizes, senão para que sejamos seus pares. Quem ama, ama só a igual, porque o faz igual com amá-lo."
 

 

 

 

publicado às 10:00

A herdeira de Rachmaninov

Se lhe aconselhasse a aumentar o volume para ouvir música clássica, provavelmente pensaria que estaria a pô-la/lo a ouvir a 5ª Sinfonia de Beethoven ou a Cavalgada das Valquírias de Wagner, certo?

Pois, não. A obra que lhe trago tem menos de três minutos e é tocada só com um piano. Sem grandes orquestras e aparato. Só com duas mãos, a magistral Yuja Wang traz-nos o desmoronar de uma montanha para dentro do auditório. Com apenas duas mãos, Wang enche a sala de trovejos, de marés revoltas de tempestade. O caso é sério. Talvez não seja única, nem a primeira, mas creio que estou a medir bem as minhas palavras ao chamá-la a mais digna herdeira de Rachmaninov.

 

Haverá música se houver amanhã? Relembro as palavras de Emir Kustorica sobre uma outra arte (outra?):

"My purpose is to make a movie to make you warm. To give you some heat. Now, this rational world has become a place where only what is cool is good. Do you cut the movie on the basis of the beat of modernity or the basis of the beat of your own heart?

 

publicado às 10:10

Premonições Amarantinas: Vol I

Decidi encerrar 2025 com uma última viagem: Amarante.
 
Viajar ao norte é um acontecimento para qualquer pessoa, para qualquer português. Não por acaso dizemos de quem está desorientado ou perdido que perdeu o norte. Pois Amarante, para mim, é o Norte no seu estado mais puro.
 
Deixo, por isso, três sugestões de documentários sobre personalidades portuguesas muito amarantinas:
 
  • Agustina Bessa Luís
  • Amadeo Souza Cardoso
  • Teixeira de Pascoaes
 
Se estou a conhecer a primeira pelo seu célebre livro de '54, o segundo já colhe a minha admiração pelos seus quadros (e cartas!) há quase 20 anos. O último, mestre assumido por Fernando Pessoa, ainda é apenas um objetivo, com toda a curiosidade que tal condição de promessa acarreta.
 
Com os comentários de João Bénard da Costa, Manoel de Oliveira, Mónica Baldaque e, entre outros, da própria, deixo-vos o primeiro documentário, sobre a insubstituível Agustina:
 

publicado às 10:00

Os Duos da Reinvenção: Field e Hoffman

O terceiro Duo da Reinvenção: John Field e Magdalena Hoffman.

Apesar da indiscutível beleza da harpa enquanto instrumento musical para o público leigo (é, talvez, o mais angelical que podemos conceber, disso não há dúvida), a verdade é que não são assim tantas as versões disponíveis com solos ou adaptações para este instrumento. Hoffman vem pôr fim a este vazio. Vem confirmar que a harpa é um instrumento injustamente esquecido, especialmente apto para tocar noturnos, por exemplo, mas não só.

É certo que este álbum Nightscapes, da Deutsche Grammophon, não constitui propriamente uma recomposição dos noturnos nele tocados, como os de Chopin ou Field, nem das peças de Britten, mas a verdade é que a escassez de gravações de qualidade destas e outras peças em harpa tornam este álbum numa nova leitura sobre peças tão já conhecidas nossas.

Esta ponte alada saiu em 2022, mas começou no século XVIII, com John Field, e atravessa o XIX, com Frédéric Chopin, e o XX, com Benjamin Britten. 

publicado às 10:00

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